Review: Lobos, Tânia Ganho
Nunca mais a sua sobrinha se verá como ela, Fedra, a vê: preciosa e inteira. Fedra observa-a e tem a sensação de que Leonor leva consigo um fantasma para todo o lado. O espectro da menina que foi. Não se desenbaraçou dela naturalmente a cada mudança própria da idade; aquelas menina inocente foi-lhe arrancada à força, com violência.

Queria tanto ter gostado deste livro.
Este é o terceiro livro que leio da autora e tradutora portuguesa Tânia Ganho e uma coisa é impossível negar, esta senhora escre preciosamente. Depois de ter lido Apneia, que me deixou completamente colada e O meu pai voava que me arrancou umas valentes lágrimas, não resisti a pegar em Lobos, o seu mais recente livro, quando o encontrei no Kobo Plus.
Claro que se calhar já ia com algumas expetativas em relação a este livro, o que provavelmente contribuiu para a minha deceção, mas estava mesmo à espera de muito mais. O tema do livro é muito interessante e atual e mesmo a forma como a autora escolheu abordar a temática, com personagens cruzadas, torna a leitura mais prazerosa e cativante, mas faltou mais concretização. O livro aborda vários temas: a temática da partilha não consentida de imagens na net, pedofilia, inteligência artificial, crimes de guerra, Alzheimer e temáticas familiares complicadas e acho que foi aqui que o problema começou, o livro parece uma sopa de temas sem que nenhum seja realmente esmiuçado.
Fedra é a personagem principal, uma investigadora forense que se dedica à análise e procura de pedófilos que partilham vídeos de crianças na dark web. Fedra é também tia de Leonor, uma jovem adolescente que teve uma relação com o seu explicador, um homem mais velho que partilhou imagens suas nua, que captou e partilhou de forma não consentida. Leonor é neta de Amélia que sofre de Alzheimer e filha de Helena que tenta conciliar o cuidado da mãe doente com um casamento em decadência. Além disso, Fedra é ainda o amor passado de Stefan, um alemão erradicado em Portugal e responsável por uma reserva de lobos e uma possível vítima de pedófilia.
Este poderia ser um enredo bom, algo confuso, mas bom. No entanto, a autora passa por esta mescla de temas sem conseguir desenvolver e concretizar um a fundo. Na minha opinião a personagem de Leonor ficou muito aquem do que merecia, Helena parece inexistente, mesmo Fedra acaba por não estar a dar o que deveria. Muito provavelmente para que este livro fosse bom precisaria de ter o dobro das páginas, o que depois também o tornaria muito massador, mas fiquei com a sensação de que este é um livro que acaba por não dizer nada.
Continuo a gostar muito da Tânia Ganho e a querer ler mais coisas dela, mas este realmente não me encheu as medidas.